15. A PRIMEIRA AMNÉSIA A GENTE NUNCA ESQUECE

Amnésia

Arte: Adilson Terrivel

Por Adriana Baldan

A primeira amnésia a gente nunca esquece, conto do Livro Tristes Finais para Começos Infelizes de Raul Otuzi é um recorte em uma madrugada de um casal: Ed, Edward, Edgard e Fátima, Venceslau, Bernardo, Penépole e Leandro. Não. Não estou enganada. Sim, um casal é um par romântico. E o conto tem apenas um par romântico. Bem, para saber como um par romântico tem tantos nomes, só mesmo lendo o conto. A única coisa que posso adiantar é que todas estas ‘pessoas’ só estão presentes na cena de um casal por causa da amnésia. De ambos.

Se uma pessoa com amnésia causa estragos, o que dizer de duas? E juntas? Este é justamente o argumento inicial do texto que faz jus ao título do livro ao qual pertence. Com um começo  conflituoso, o texto vai amarrando vagarosamente o leitor que, a despeito da descrição de uma cena surreal, se vê compartilhando da angústia do casal e tecendo fios de esperança na resolução do conflito sui generis que lhe é apresentado, mas… no fim das contas, o autor cumpre o seu papel de dar um triste final para um começo infeliz.

O conflito central é verossímil: a mulher acorda o marido no meio da noite querendo saber por que ele nunca teria jogado o passado dela em sua cara. Ele pensa que essa não seria uma atitude amorosa, além de ter-lhe prometido nunca fazer isso. Mas, ela acha que essa seria uma prova de amor: isto é, o fato do passado dela incomodar o parceiro. Ponto. A verossimilhança termina aí, pois, tanto ele quanto ela não têm memória para saber o que é este passado e, para falar a verdade,  nem mesmo o presente. O diálogo vai se tornando absurdo, eventualmente voltando a pontos de verossimilhança, depois retoma o nonsense…E este movimento entre o real e o imaginário, entre o plausível e o impossível, tece uma sutil metáfora das relações humanas.

Primeiramente, numa relação o que é real? Sejamos honestos, cada parte de um casal tem uma memória diferente e um relato próprio para os fatos vividos em comum. Então… como definir o que é real? Para piorar, os dois ilustres personagens do conto não sabem bem quem são e, ato contínuo, nem quem é o próprio cônjuge. Lá, no conto, é efeito da amnésia. E na vida real? E neste jogo em cada um tem uma lembrança (ou a falta dela), o casal do conto, em determinado ponto,  joga o jogo de dizer o que outro quer ouvir – na tentativa de preservar uma relação (que os dois nem sabem o quanto é verdadeira)…

Não saber bem quem é outro, não saber quem de fato você é, ter a identidade misturada a do parceiro, não saber dizer o que é real na relação… Uma existência nada, nada confortável a deste casal.  Ufa! Ainda bem que é uma narrativa surreal sem conexão com a realidade.

Ou, em outras palavras: se procura profundidade com sutileza, leia.

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