1. DEDO NA FERIDA

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Arte: Rodrigo Daher

Por João Flávio Almeida

A obra de arte é do autor: e de cada um. Se tentasse eu explicar o que vi neste conto certamente diminuiria seu caráter artístico. Me limitarei, portanto, a falar outra coisa, obviamente inspirado pelo Dedo na Ferida, de Raul Otuzi.

Sartre já dizia, logo após a segunda guerra, que “o inferno são os outros”. A ideia original remonta uma metáfora curiosa: a do amo e do escravo, de Hegel. Conta-se de dois homens que, lutando contra suas próprias angústias, num dado instante resolvem jogar no outro a responsabilidade por suas agruras, e entram num embate, e embate até a morte. Eles se olham, se estudam, e depois partem para o duelo. Nenhum deles quer ser derrotado, pois isso implicaria dar ao outro o direito sobre sua própria existência. Depois de uma longa batalha, já exaustos, ambos percebem que se levarão à morte, e é neste exato instante que um deles decide viver como escravo a morrer como homem livre.

O vencedor se torna o amo, e o derrotado seu escravo subjugado.

No decorrer dos tempos, o amo se coloca sempre sentado num trono, comendo, se fartando, engordando e se enchendo de tédio e de nova angústia. O escravo, por sua vez, trabalha o mundo, move, faz nascer e colher, fica forte e adquire novos saberes todos os dias, mas tudo isto ainda não alivia sua angústia. Todas as noites seus travesseiros recebem lágrimas: o escravo tem a quem culpar, uma esquiva, uma fuga, um lugar onde depositar respostas. O amo não: ele não sabe para onde olhar, e suas lágrimas se perdem sem razão.

Sartre, um existencialista francês do pós-guerra, acredita que no exato instante em que um homem leva sofrimento a outro, sofre, na mesma medida, o primeiro. O conflito entre os sujeitos é nossa marca registrada, e chega até a ser entendida, por este filósofo, como algo importante. É este embate com o outro que nos faz conhecedores de nós mesmos, é o outro que nos revela a nós mesmos o que podemos ser: o outro é o nosso espelho.

Mas quem dera o outro fosse um espelho amigo: o vizinho camarada não pisasse na bola, ou o filho companheiro não tivesse a memória tão curta, e quem sabe marido amoroso e o colega de trabalho paciente nunca traíssem a confiança. Quem dera Claudionor fosse fiel, Alessandra honrasse pai e mãe, e Lídia se desse o valor no tempo certo. Quem dera a família fosse unida, e os amigos, vizinhos e conhecidos fossem redutos de paz. Quem dera o outro fosse paz!

Mas não: o outro está sempre ao seu lado com aquele dedo sujo de imundícias dentro de sua ferida no peito, ao lado do coração. Ela não fecha, não para de doer, não se cura: o outro não deixa. Todos os outros, e você mesmo, ferindo-se mutuamente e eternamente.

O inferno são os outros.

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